Meu perfil BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, VILA DAS MERCES, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Spanish, Arte e cultura, Livros, viver é um passatempo obrigatório MSN - KleberSantos390@hotmail.com
Muito bom o romance (creio que a classificação "novela" seria mais adequada, mas a distinção dos termos no Brasil nunca me pareceu convincente) O Invasor (2002), de Marçal Aquino, no entanto, acho ainda o filme melhor. Não é demérito nenhum ao autor, afinal, ele também participou da elaboração do roteiro do filme, ao lado do cineasta Beto Brant e Renato Ciasca, num interessante e incomum processo de produção, pois ambos projetos foram tocados simultaneamente. Nessa história a máscara da burguesia cai. O discurso que utiliza e que joga toda a culpa da violência vigente em nossa sociedade nos pobres "inconformados ou revoltados" na obra é desmascarado quando dois representantes da classe média recorrem à ajuda especializada de um matador, típico representante do submundo, para resolver definitivamente uma luta por poder e dinheiro entre sócios de uma grande construtora, motivada, principalmente, pela discordância de um deles, o majoritário, em entrar em negociatas obscuras para ganhar licitações públicas (qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência). Após consumada a limpeza do terreno, o drama desses homens de classe é não conseguirem se livrar do "invasor", que se torna uma presença incômoda no cotidiano dos dois mandantes do crime, sendo, especialmente para o protagonista Ivan, uma versão material e perigosa de sua consciência culpada. Para mim, é esse o grande mérito da obra, mostrar o vínculo entre dois universos de criminalidade distintos, o da violência urbana banal, típica do Datena, do extinto Aqui Agora, etc., com a grande e requintada "bandidagem de elite" de empresários e políticos corruptos. Creio que o filme é melhor do que o romance pela excepcional direção do Beto Brant (Matadores, Ação entre Amigos, etc.), pelas atuações impressionantes dos atores, inclusive do "invasor titã" Paulo Miklos e pela maravilhosa trilha sonora recheada de sons contundentes e críticos. O enredo é praticamente igual, talvez as duas únicas diferenças substanciais sejam, no filme, a exploração mais aprofundada da relação amorosa entre a filha junkie (viciada e revoltadinha) do sócio morto com o matador Anísio e uma mudança num personagem secundário. Anísio, após efetuar o serviço, se impõe como segurança da empresa, mesmo contra a vontade dos patrões, e começa a tomar liberdades. Uma delas é, no romance, levar um amigo na construtora e pedir um "empréstimo" para os sócios para que o mesmo pudesse abrir um bar na periferia. Na elaboração do filme, Beto Brant teve a genial ideia de substituir o tal amigo pelo Sabotage, talentoso cantor de rap em ascensão na época, assassinado pouco tempo depois. Na cena, o dinheiro requisitado é para financiar o CD de estreia do rapper. Diante de dois atônitos membros da classe média alta a música da periferia, o mundo que eles só quiseram utilizar para seus fins mesquinhos e depois descartar, surge no canto incômodo de Sabotage, auxiliado por Miklos fazendo beatbox (imitação de batida de percussão feita com a boca), concretizando a ideia de invasão, de confronto entre universos, presente no filme.