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não verdades - apenas hipóteses interessantes
 


Cony

 

Na última sexta-feira entreguei o exemplar final da minha dissertação de mestrado "Da paixão inútil: a escrita existencialista de Carlos Heitor Cony" ao autor pesquisado em seu escritório no Catete - Rio de Janeiro. Além do prazer sempre proporcionado por uma conversa com Cony, tive a sensação de cumprimento de um dever - não por obrigação acadêmica, já que tal prática não é praxe, nem consta em qualquer manual de pesquisa sobre autor vivo, mas por sentir ser o mínimo a ser feito depois da ajuda recebida durante a pesquisa e por ter tido grandes momentos durante a leitura de suas obras nesses longos anos que passarão do primeiro contato (na época nem pensava em cursar Letras ainda) com seu romance de estréia, O Ventre,  e o momento atual, poucos meses após concluir um texto crítico extenso e, ao meu ver, relevante sobre a mesma obra.

Abaixo segue o resumo da dissertação:

Nesta dissertação é analisada a presença de elementos do movimento filosófico denominado existencialismo, especialmente os provenientes da leitura da produção ficcional de Jean-Paul Sartre (1905 – 1980), na prática literária do romancista brasileiro Carlos Heitor Cony (1926 -  ). Para tanto, se desenvolveu um estudo comparativo das distintas versões de seu romance de estréia, O Ventre (1958), produzidas ao longo de mais de 50 anos de existência. Com base nessa construção de um olhar crítico sobre a obra e sobre as tendências que motivaram sua escrita e, principalmente, suas reescritas, delineadas pela leitura das alterações empreendidas de uma versão para outra do romance, se buscou compreender a dinâmica dessa relação intertextual flagrada no andamento de seu processo de criação. Este estudo pretende ressaltar a lógica complexa desse diálogo, marcado por momentos de aproximações e afastamentos, em consonância com as situações particulares em que os autores estavam envolvidos e seus objetivos específicos almejados, cada qual pertencente à época, local, situação histórica e política, formação pessoal e circuitos intelectual, cultural, literário e mercadológico distintos. Almejou-se, por fim, refletir sobre o complexo mecanismo das trocas culturais em funcionamento no seio da criação literária e delinear os pressupostos, as concepções de literatura – sua função pessoal e/ou coletiva, sua posição na sociedade, sua face autocrítica – subjacentes ao fazer artístico dos escritores anteriormente mencionados.

 

 Caso algum pesquisador queira conhecer meu trabalho, entre em contato (kle.santos@uol.com.br)



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 20h47
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Aterrar

 

“A distância é a medida. Tudo é uma questão de perspectiva. Nem muito perto ao ponto de enxergar apenas uma parte; não tão longe ao ponto de não perceber os detalhes. Uma lógica antiga, nada que um grego qualquer já não tenha dito de um modo melhor, para variar.” –  escreveu incomodado em seu notebook, sem ainda postar em seu blog, o passageiro da poltrona 25A  do voo 1572 da Gol.  Não gostava de ideias repetidas, alimentava desde os tempos de faculdade um ingênuo anseio por novidades, minado dia a dia pela repetição dos próprios atos e pensamentos e pela frustante descoberta de obras antigas que – muito antes dele nascer – já diziam o que ele acreditava ter sido um insight seu, pessoal, inédito, único.

Édouard Tissot considerava-se bem mais do que um passageiro. Após conexão em São Paulo, vindo de Paris, nesta breve hora que faltava para pousar no aeroporto Santos Dumont para sua vernissage numa galeria da Barra da Tijuca, tentava acreditar piamente na unicidade de sua existência. Só isso justificava a distinção, o destacar-se, ser o ponto vermelho na multidão cinza, estar neste avião, sendo esperado em lugar tão distante e por pessoas, quase todas, desconhecidas. Pautou todas suas escolhas pela busca consciente de se distanciar do comum. Abandonar as emboloradas inovações modernistas entronizadas nas cátedras das anteriormente combatidas Escolas de Belas Artes, abraçar o desprezado vídeo como forma de expressão artística nos 80, não compartilhar litros de Johny Walker com ressentidos de 68, se reinventar ao usar as novas tecnologias... Escolhas, conscientes, às vezes até contrárias às suas predileções. Secretamente amava os impressionistas (algo que críticos menos míopes já haviam percebido nas entrelinhas de algumas de suas instalações), mas nunca cedeu ao desejo de dar continuidade aos seus croquis criados nesta linha em momentos de tédio com as dificuldades técnicas encontradas durante a realização de suas misturas de ferramentais tecnológicos.

“A distância, a perspectiva. Nem perto, nem longe. Do ponto de observação e da acuidade visual do público depende o efeito estético de qualquer obra, reles ou prima.” – reescreveu. Pareceu-lhe mais moderno, mais apropriado para desenvolver o resto de seu texto, uma digressão pseudoteórica sobre a técnica da instalação multimídia, mas, mesmo assim, inegavelmente o teor continuava rançoso, rememorando gregos, geniais e petulantes, sempre presentes. O passado, os hábitos, o comum. Fantasma ao encalço. Enquanto um aviso, em duas línguas distintas da sua, sobre a aterrissagem próxima ressoava pela aeronave, levando-o a fechar o notebook e recolocar o cinto, Édouard entediava-se previamente com o compromisso que ocuparia boa parte de sua noite. Foi inovador, inegavelmente, decidir estrear seus novos experimentos – como denominava suas criações buscando aproximar-se da linguagem científica para chocar alguns críticos tradicionalistas – num local distante dos grandes centros da arte mundial. Aproveitou-se, necessário admitir, do incentivo do Governo francês, imiscuindo-se em transações diplomáticas, trocas culturais forçadas bastante questionáveis. Pouco se lixava para a patrulha vermelhinha, se o dinheiro vinha dos Médicis, do PC ou de Sarkozy, considerava a arte independente e superior a tais questões. No entanto, tirante o local, a essência do evento permanecia irritantemente idêntica: canapés, drinks, sorrisos amarelos, elogios vazios, análises de corredor ridículas, trocas de telefones destinadas à futura exclusão da agenda do celular, negociatas dos mercadores do Templo, alguns flertes de curtíssima duração, etc. A sombra da rotina pairando sobre toda e qualquer mudança. Pensava ter escapado desse perigo ao triunfar na carreira artística, mas, mesmo evitando a burocratização da atividade promovida por alguns colegas da profissão, seus dias estavam longe da aventura sonhada na juventude.

O mistério do pó se acumulando sobre um objeto em constante movimento. Acordar em Buenos Aires cheirando tabaco e ao lado de um vestido longo vermelho, almoçar em Milão com um grupo de modelos da Dolce & Gabanna antes de desfile que utilizou suas imagens como cenário virtual, à noite participar de um happening coletivo multinacional de arte digital diante da Villa Giulia em Roma, com direito a uma esticada até Amsterdã, graças ao jatinho de um dos multimilionários curadores, para badalar, curtir haxixe e prostitutas na Red Light District. Um sonho, resistente como aço. Mas não inoxidável, sujeito às corrosões do tempo e da repetição como qualquer outro. Há algum tempo as poltronas de um Airbus ou de um Boeing já não eram mais tão confortáveis e as cidades todas iam se parecendo cada vez mais. Pelo pouco que viu por entre a neblina lhe foi impossível distinguir São Paulo de qualquer outra breve visão aérea da Cidade do México ou de Chicago.

No fundo, seus dias não eram tão romanescos assim. Nada parecido com a anedota de suas aventuras realizadas em quatro países, rodeado de várias belas mulheres, em menos de 48 horas, que gostava de contar nos raros reencontros com os amigos dos tempos de faculdade para vê-los salivar. Ex-rapazes igualmente delirantes em seus sonhos, agora homens feitos ("Ou seria melhor dizer desfeitos?" - ironizava) com empregos fixos, assalariados (bem, mas assalariados), pais de família, com horário para voltar para casa, contas atrasadas, duas viagens longas por ano, no máximo... Deixava-os com tal sample fictício de algumas de suas experiências reais, às vezes, na prática, nem tão interessantes assim – as modelos, por exemplo, eram entediantes, preocupadas somente com as câmeras dos jornalistas convidados para cobrir o evento –, embasbacados, aos olhos deles retornando como um herói da masculinidade para seu loft de solteiro maravilhosamente decorado, projetado para ser totalmente high-tech, e completamente vazio no centro de Montpellier, no caso para apenas preencher sua noite com a análise de um contrato cheio de números e porcentagens que seu agente lhe passara com urgência na mesma tarde do encontro.

Aos poucos, o que se passava na janela começou a anular seus pensamentos. Em processo de pouso, voando muito baixo, viu um mar incrivelmente claro sob um sol intenso, próximo a algo que lhe pareceu uma lagoa da mesmíssima cor. De certa forma, o próprio mar em alguns pontos toma a forma de um lago por estar quase completamente rodeado por sinuosas pequenas montanhas verdes. Uma orla inteira brilhando com areias brancas, circunscrevendo os limites de uma cidade, vigiada por embarcações por todos os lados. Como num passeio turístico, o avião sobrevoava em círculo aquela paisagem, permitindo ver detalhes de mansões construídas em morros arborizados, hotéis luxuosos, piscinas, marinas, o próprio aeroporto em que irá pousar tão próximo das águas, uma ponte enorme investindo insanamente contra o mar, um pequeno castelo numa ilha perto da pista de pouso, tudo junto num espaço minúsculo formando um conjunto de beleza estonteante ao ser englobado num único take, naquela exata distância que diretor algum poderia premeditar e que o avião proporcionou pela simples necessidade de ir aos poucos diminuindo a altura e a velocidade para pousar. Havia sido avisado da fama da Cidade Maravilhosa e mesmo do quanto era especial aterrar naquele local, algo descrito numa canção de Tom Jobim como lhe dissera Vieira Lima, amigo brasileiro, escultor, que Édouard considerava extremamente indulgente para com a outra fama da cidade, mais recente, e também bastante conhecida na Europa, mas, envolvido em suas lamúrias, tinha esquecido completamente até mesmo para onde estava indo e todas suas prevenções irônicas prévias contra o local. Talvez por isso, tomado de surpresa, aqueles breves três, no máximo, quatro minutos, injetaram uma lufada de ar no sério passageiro francês, soprando a poeira de um rosto imobilizado num esnobe ar blasé. Apesar de não apreciar que suas emoções coincidissem com a de tantas outras pessoas, famosas ou anônimas, sem novidade, estranheza ou diferença para com o comum, naquele instante o impacto da beleza predominou sobre seu culto da individualidade e o passageiro da poltrona 25A saiu sorridente como todos os demais turistas em suas primeiras fotos em solo carioca.

 

KPS - 14/05/09



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 23h48
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