Fim e começo
Hoje, graças a minha esposa que pôde ir no horário da tarde até à USP (por que tudo que envolve a pós-graduação das faculdades públicas não funciona após às 17 horas? Para afastar os inconvenientes trabalhadores?), cumpri a etapa final do meu mestrado, a entrega da dissertação aprovada e revisada. Muito bom conseguir alcançar esse momento, principalmente tendo em conta todas as dificuldades enfrentadas... Creio que, em geral, realizei bem a tarefa proposta, no começo bastante improvável de ser finalizada com êxito, devido minha formação deficitária em muitos pontos (apesar de ser um leitor e estudante esforçado) e a condição financeira bastante desfavorável para tais vôos num universo tradicionalmente reservado aos preparados desde tenra infância em leituras indicadas pelos pais cultos, falantes de duas ou mais línguas estrangeiras, possuidores de bens intelectuais e financeiros que servem de estímulo e tela de proteção para os saltos - apesar de tudo isso, nem sempre bem sucedidos - dos filhos. Sem o "paitrocínio" e sem amparo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e companhia, tive conciliar tal tarefa com atividades bastante distintas do labor mental. Trabalhar durante uma pesquisa acadêmica não é fácil. Nem a graduação sozinha é fácil de se levar, com a devida seriedade, trabalhando oito horas por dia, quanto mais uma pós-graduação; apesar da carga horária em aulas ser bem menor, o tempo exigido em pesquisa, leituras e, principalmente, escrita e reescrita de seu trabalho é bem maior. Sem querer me aproveitar de tal "desculpa sociológica", considero que talvez em alguns pontos poderia ter ido além, talvez ter uma maior coerência em um ou outro ponto, poder me aprofundar mais em outros ou mesmo não ter me concentrado tanto em aspectos não essenciais... mas, creio que fui bem, e, meus avaliadores, entre eles meu orientador, consideraram até que fui um pouco além do que é exigido atualmente em pesquisas nessa etapa de mestrado. Terminar algo nem sempre é uma tarefa fácil. Por mais que haja uma inegável sensação de alívio por ter alcançado um objetivo, ultrapassado uma etapa, cumprido uma promessa, mesmo que de um modo que quase nunca se assemelha ao imaginado no começo da jornada, por outro lado, surge sempre como pano de fundo do prazer uma mistura de falta com ansiedade. A falta provém da perda de uma preocupação (em alguns momentos prazerosa) constante. A ansiedade surge da necessidade de uma substituição e do medo de não saber escolher acertadamente o que pode preencher devidamente o lugar que sobrou vazio. Abre-se novamente o espaço para criar e, com ele, ressurge os temores idênticos de anos atrás de não saber como fazer, o desconhecimento do caminho, aquele temor de não ser capaz que, mesmo após a realização de algo semelhante, não deixa de aparecer para tentar desestimular. Somando com a memória recente das dificuldades passadas com as presentes e com as que provavelmente virão no futuro, tudo sugere uma procrastinação de tal necessidade. Somando-se às outras exigências prementes de sobrevivência pessoal a ocupar quase que exclusivamente o pensamento, deixando pouco espaço para preocupações abstratas com o destino do homem, para as divergências entre pensamentos de filósofos, para análise de filigranas de estilo, para o saborear do inexistente e o sonho do imaginário e suas conexões – tão pouco visíveis para o olhar pragmático – com o "real", parece complicado reiniciar. Mas o raio cairá novamente, não no mesmo lugar , mas um pouco mais adiante. Haverá reincidência futuramente. Sempre há brechas e sempre há vontade de ir além. Só o fato de estar digitando tais reflexões soltas ao invés de estar diante da tevê assistindo a final do BBB – como minha proveniência e minha situação socioeconômica sugeriria ser a ocupação ideal para esta noite - já indica que ainda desejo continuar tentando invadir terrenos que, teoricamente, me são vetados.
Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 00h00
[]
[envie esta mensagem]
[link]

|