Meu perfil BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, VILA DAS MERCES, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, Spanish, Arte e cultura, Livros, viver é um passatempo obrigatório MSN - KleberSantos390@hotmail.com
Muito se criticou a utilização de tipos na literatura, especialmente na tradição romanesca do século XIX.A composição de personagens complexos ou, no auge das "invencionices" de vanguarda, a simples decomposição do personagem tal como entendido normalmente (uma unidade psicológica), por influência de pesquisas psicanalíticas, especialmente de Lacan, condenou ao expurgo a prática de forjar retratos de seres que traduzem em todos seus traços uma única orientação psicológica, uma monomania, por assim dizer. Um tipo como o pai de Eugênia Grandet, no romance homônimo de Balzac, a personificação da usura retratada com a minúcia que só há nos mestres do romance do século XIX, mostrada na decoração de cada cômodo da casa da família Grandet, em cada hábito, até no modo de falar gaguejando apenas durante negociações (para irritar o oponente e assim fazê-lo se preocupar mais com o dito por Sr. Grandet do que em analisar a situação), apesar da verossimilhança psicológica conquistada pela mestria de Balzac, não cabe na literatura do século XX em diante. No entanto, não creio ser completamente descartável a utilização de tipos, até mesmo de caricaturas, na literatura. Tudo depende da intenção da obra. O tipo, como explica o próprio Balzac durante o romance citado, tem o potencial de em seu extremo ridicularizar um comportamento que em dose homeopática pode ser considerado justificável ou que, às vezes, passa mesmo despercebido como vício em sua utilização cotidiana comum a praticamente todas pessoas inseridas numa comunidade tomada por tal pensamento ou prática. A usura, a mesquinharia, o capitalismo selvagem nascente na França burguesa, rendida totalmente ao Deus dinheiro, foi flagrada de modo tão perfeito por Balzac em sua Comédia Humana que Marx e Engels dizem ter aprendido mais lendo o mestre francês do que lendo qualquer estudo sociológico, apesar da orientação política de Balzac ser radicalmente diferente dos dois pais do Manifesto Comunista.
Obs.: impressionante a semelhança estrutural, a contaminação do romantismo da protagonista pelo influxo dos interesses econômicos, entre tal obra de Balzac e o romance Senhora de José de Alencar.
Bem... estou novamente em casa. Não entrarei em detalhes, mas realmente não era vantajoso continuar no emprego que consegui há menos de dois meses. Foi uma tentativa, infelizmente não deu certo.
Se alguém estiver interessado em revisão de textos (TCC, dissertação, tese, monografias, documentos, redações, etc.) ou em aulas de literatura ou língua portuguesa, estou apto a exercer tais serviços.
Também estou em processo de mudança de endereço. Espero que a combinação das duas coisas resulte, a longo prazo, numa melhoria de vida. Quem sabe me reaproximar de meus interesses: literatura, estudo, pesquisa, etc. Neste ano não conseguirei nem alcançar a metade da minha média de leitura de livros (3 por mês), acho que nem dois vou alcançar.
Do que sentimos saudade? Será que apenas de coisas completamente boas? Não sei... Creio que daqui alguns anos sentirei saudade, pelo menos um pouco, deste meu apartamento pequeno, mal localizado (muito mal localizado) e cheio de problemas estruturais e em pequenos detalhes que eu bem poderia ter consertado se não fosse tão ruim em trabalhos manuais.
Mesmo indo para algo melhor (espero!), bons momentos, maus momentos, momentos únicos foram vividos nele e não serão obliterados totalmente pelas novas experiências que irão surgir. No mínimo, o fato de ter sido o primeiro lugar realmente meu e o primeiro em que vivi com minha pessoa amada já será suficiente para motivar uma saudade deste apartamento apertado de Cohab. A privacidade daqui, conquistada por alguns bons quilômetros de distância de qualquer ser humano conhecido meu ou de minha esposa, também pode fazer falta...rs. Mas não é nada que possa compensar o sofrimento para chegar aos mesmo seres quando é necessário e ao trabalho, ao estudo, ao lazer, etc.
Saudade, sim. Foi marcante o dia em que chegamos, a sensação confusa de tentar se arrumar entre a zona da mudança, assim como será o dia de sair que virá e a chegada em outro lugar. As lembranças de belos instantes de alegria e outros tantos de problemas e soluções vividos entre as paredes deste imóvel (do bairro em si, creio que não sentirei falta, até por não ter tido nenhuma vontade de conhecê-lo realmente... talvez saudade do ar puro das matas próximas....rs.) ficarão para sempre comigo, assim como tantas outras experiências passadas em minha existência igualmente díficeis de classificar como totalmente positivas, mas que não deixam de motivar saudade, às vezes. Coisa de velho, quase trinta anos e fios brancos? Talvez...rs.
Não vai dar certo Massa e Alonso na Ferrari no próximo ano.
Argentina vai ser problema (com Maradona ou sem) na Copa de 2010. Vai chegar por baixo e desacreditada como a Itália de 2006...
Palmeiras está morrendo de vontade de entregar a rapadura no Brasileirão, ainda está com sorte dos rivais serem tão incompetentes quanto (mas até quando?).
O ano do centenário do Corinthians tende a ser bem complicado. O que sobrou de organização no ano de 2008 (e resultou nos bons resultados do final do mesmo e no primeiro semestre de 2009) está sobrando em oba-oba e desorganização atualmente... sem contar a pressão inevitável de conquistar um título inédito num ano simbólico.
Não queria blogar outro comentário político, mas estou sem inspiração para escrever literatura (ou algo que pretenda sê-lo) e nem andei lendo nada especial para comentar aqui, então...
Atualmente não sou funcionário público, mas já fui e talvez volte a ser um dia. Não é por isso, no entanto, que me revoltou uma propaganda sobre a transparência das contas municipais veiculada na televisão e no rádio exaustivamente – por sinal, será que também constam nas contas os gastos com propaganda do governo Kassab? Ao comentar como um grande avanço a divulgação da folha de pagamento dos funcionários da prefeitura, inclusive constando o nome das pessoas, numa época em que até aposentado com salário mínimo sofre sequestro relâmpago quando vai retirar o dinheiro no banco no dia 05, o publicitário "justifica" a medida com o comentário de uma moça: "Quem não deve não teme." Ok? Por que então você não coloca o quanto ganha no Orkut e divulga no Twitter e em seu blog que acabou de receber seu salário?
O metrô de São Paulo está sendo usado como carro-chefe para alavancar a candidatura de Serra e Alckmin aos cargos de Governador e Presidente na capital paulista. Não falta comercial em todas as mídias, inclusive nos próprios vagões do metrô e dos trens da CPTM, anunciando como uma oitava maravilha do mundo a tal da Expansão São Paulo. Aproveitando-se da inevitável (eu espero, se não surgir outra cratera lunar no caminho), apesar de muito atrasada, inauguração de estações da Linha Amarela no próximo ano e da reforma estilo maquiagem das estações da CPTM, para parecer que as linhas da CPTM possuem a mesma qualidade do metrô - o que não é verdade, o único trecho decente é o que acompanha o Rio Pinheiros -, o Governo tenta empurrar na população a visão de que o sistema de transportes urbanos via férrea de São Paulo é maravilhoso e só está melhorando. Verdade?
Nas últimas semanas tive o "prazer" de ter que usar do metrô novamente nos chamados horários de pico. Minha árdua tarefa foi ir da estação Penha até a Santa Cecília, um trecho direto da linha vermelha, Leste-Oeste. Está um inferno, muito pior do que era alguns anos atrás. Pra começar é quase impossível entrar no metrô ao longo do trecho Leste da linha vermelha. Se você não tem a sorte ou o tempo de entrar diretamente na estação inicial do setor, Corinthians-Itaquera, se prepare para uma aventura considerável. Vagões lotados, estações lotadas, às vezes até com barreiras de limitação já nas catracas para impedir aglomeramento exagerado na plataforma, risco para acidentes graves.
Bem, mas na cara e coragem e empurrões, você se encaixou num espacinho, devidamente encoxado e sem lugar para se segurar... entrou. Se prepare para outra fase da loucura. A lerdeza do metrô atual é incrível. Demora anos entre uma estação e outra, para no meio do caminho, dia sim dia não surgem problemas técnicos na voz do condutor.
Espero serem problemas de uma fase de transição, motivados pela aumento dos usuários devido ao Bilhete Único e pelas reformas e construções do metrô. Enquanto isso, acho uma enganação essa propaganda toda em torno do metrô feita pelo Governo. Uma ofensa à inteligência de qualquer pessoa que precise usar o metrô nos horários de pico.
Obs.: Mesmo assim, ainda é melhor do que o transporte rodoviário urbano... Enfrentar nossos ônibus (sucateados, lerdos, poucos), lotações (que respeitam à risca o apelido, nunca andando sem estarem apinhadas de gente, mesmo em horários em que poucos usuários as utilizam: os condutores fazem questão de ir mais lentamente para encher seus veículos e o bolso das cooperativas e deles) e corredores idiotas em que vários ônibus ficam fazendo fila indiana muitas vezes desnecessariamente é muito pior.
Obs.2: Rádios e televisões deveriam noticiar os problemas do metrô e do transporte coletivo em geral com a mesma atenção que dão aos problemas do transporte individual, até para ajudar os trabalhadores a se justificarem diante de seus chefes ao se atrasarem. Afinal, qualquer folha que cai na Marginal é motivo para vários minutos de noticiário, mas nada é dito quando uma linha de metrô fica parada mais de meia hora atrapalhando a vida do triplo de pessoas.
Finalmente, após uma epopeia considerável, consegui uma colocação no nosso "aquecido" mercado de trabalho. Entrarei no ramo da criação de textos para sites. Espero ter uma boa experiência profissional e poder realizar alguns desejos pessoais e familiares.
Sou fã confesso de Chico Buarque, mas, infelizmente tenho que dizer... é decepcionante o seu novo romance, Leite Derramado. Realmente não gostei. Li todas as demais investidas do ótimo compositor de música popular no campo literário e, mesmo não achando suas obras escritas tão boas como seus textos musicados, considerava interessantes experimentos, sinceros e criativos. No entanto, seu último romance é fraquinho, mesmo se comparado aos anteriores (Estorvo, Benjamin, Budapeste). Há um trecho ou outro bem escrito, algo apontado pela crítica comumente dirigida à obra, mas esse é o típico elogio feito quando não se encontra nada melhor num romance. É a mesma coisa de elogiar apenas a fotografia de um filme... Sua intenção de criar uma saga familiar da elite brasileira do final do século XIX até nossos dias, utilizando a voz de um membro centenário decadente e moribundo, se possui o valor ético de colocar o dedo na ferida de um comportamento preconceituoso e exploratório de uma classe sem iniciativa, com ranços escravistas, acostumada apenas a sugar bens herdados e se aproveitar do nome para se manter no topo (mesmo na penúria, na pobreza), fracassa por uma composição fraca da voz narrativa e por uma hesitação entre o alegórico sugerido pelo enredo e uma escrita realista inverossímil. A voz narrativa, pela situação e pelo enredo, tinha tudo para ser construída num registro ao estilo Faulkner, fluxo de consciência, algo mais ousado, uma técnica narrativa moderna. No entanto, Chico se esmera em escrever "certinho", apenas utilizando forçados lapsos de memória, associações livres lógicas demais para serem convincentes psicologicamente e confusões banais entre nomes e situações do passado para tentar mimetizar o estágio de perturbação vivido pelo ancião internado que conta sua história. A saga, por sua vez, tão semelhante (em intenção, não em realização) ao modelo criado por Gabriel García Márquez em Cem anos de solidão, peca por não ter a liberdade imaginária dessa obra, tentando manter um registro quase de crônica de época num enredo que não se presta a isso.
Por fim, minha última crítica é a falta de criatividade do enredo e da configuração do protagonista. Não sei se já foi apontado por alguém, mas o romance é um misto de Memórias Póstumas de Brás Cubas com Dom Casmurro. Do primeiro romance de Machado há a posição do narrador e seu caráter (não está morto como Brás, mas quase, e conta sua história de jovem abonado que não soube o que fazer na vida e terminou fracassado), do segundo fica o enredo amoroso do protagonista com uma moça que é quase uma reprodução de Capitu, incluindo a suposta ou real traição (mesmo passado dúbio e aparentemente de escala social inferior, mesma desconfiança, mesmo desfecho indeterminado quanto à traição ou não, etc.). Tudo isso sem conseguir tornar o protagonista tão enigmático, tão atraente, como Machado, o grande mérito do Bruxo de Cosme Velho: criar escrotos que parecem simpáticos e fazer com que simpatizemos ou tenhamos pena de sujeitos com atitudes nada exemplares, obrigando o leitor a questionar seus próprios valores. Enfim, Leite Derramado não é um bom romance, faltou criatividade e habilidade ao nosso grande Chico.
Muito bom o romance (creio que a classificação "novela" seria mais adequada, mas a distinção dos termos no Brasil nunca me pareceu convincente) O Invasor (2002), de Marçal Aquino, no entanto, acho ainda o filme melhor. Não é demérito nenhum ao autor, afinal, ele também participou da elaboração do roteiro do filme, ao lado do cineasta Beto Brant e Renato Ciasca, num interessante e incomum processo de produção, pois ambos projetos foram tocados simultaneamente. Nessa história a máscara da burguesia cai. O discurso que utiliza e que joga toda a culpa da violência vigente em nossa sociedade nos pobres "inconformados ou revoltados" na obra é desmascarado quando dois representantes da classe média recorrem à ajuda especializada de um matador, típico representante do submundo, para resolver definitivamente uma luta por poder e dinheiro entre sócios de uma grande construtora, motivada, principalmente, pela discordância de um deles, o majoritário, em entrar em negociatas obscuras para ganhar licitações públicas (qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência). Após consumada a limpeza do terreno, o drama desses homens de classe é não conseguirem se livrar do "invasor", que se torna uma presença incômoda no cotidiano dos dois mandantes do crime, sendo, especialmente para o protagonista Ivan, uma versão material e perigosa de sua consciência culpada. Para mim, é esse o grande mérito da obra, mostrar o vínculo entre dois universos de criminalidade distintos, o da violência urbana banal, típica do Datena, do extinto Aqui Agora, etc., com a grande e requintada "bandidagem de elite" de empresários e políticos corruptos. Creio que o filme é melhor do que o romance pela excepcional direção do Beto Brant (Matadores, Ação entre Amigos, etc.), pelas atuações impressionantes dos atores, inclusive do "invasor titã" Paulo Miklos e pela maravilhosa trilha sonora recheada de sons contundentes e críticos. O enredo é praticamente igual, talvez as duas únicas diferenças substanciais sejam, no filme, a exploração mais aprofundada da relação amorosa entre a filha junkie (viciada e revoltadinha) do sócio morto com o matador Anísio e uma mudança num personagem secundário. Anísio, após efetuar o serviço, se impõe como segurança da empresa, mesmo contra a vontade dos patrões, e começa a tomar liberdades. Uma delas é, no romance, levar um amigo na construtora e pedir um "empréstimo" para os sócios para que o mesmo pudesse abrir um bar na periferia. Na elaboração do filme, Beto Brant teve a genial ideia de substituir o tal amigo pelo Sabotage, talentoso cantor de rap em ascensão na época, assassinado pouco tempo depois. Na cena, o dinheiro requisitado é para financiar o CD de estreia do rapper. Diante de dois atônitos membros da classe média alta a música da periferia, o mundo que eles só quiseram utilizar para seus fins mesquinhos e depois descartar, surge no canto incômodo de Sabotage, auxiliado por Miklos fazendo beatbox (imitação de batida de percussão feita com a boca), concretizando a ideia de invasão, de confronto entre universos, presente no filme.
Dica: ao ler, vale uma premissa necessária para tudo na vida: paciência e persistência. Novamente verifiquei a importância de tais atitudes ao ler o romance Mefisto (1936), de Klaus Mann . A princípio, me assustei com o tom do prólogo, extremamente caricato em sua descrição de uma festa de aniversário suntuosa do primeiro-ministro da Alemanha. Primeira aparição do protagonista do romance, Hendrik Höfgen, um ator que alcança o auge durante o regime nazista,nas primeiras páginas surge uma escrita com um tom exageradamente maniqueísta, programático, algo que seria justificado pelo momento histórico de combate ao nazismo em que a obra foi escrita. Mas, mesmo com tal álibi, no momento da leitura desconhecido, esteticamente o efeito não é dos melhores. A vontade é de não ler o resto do romance, afinal, pressente-se que será um desfile de acusações ao nazismo e retratos estereotipados de vilões, sem preocupação de aprofundar as personagens e problematizar a situação. No entanto, é só impressão. No capítulo seguinte já há um flash-back para o começo da carreira do ator, antes da ascensão do nacional-socialismo, no qual a narrativa toma um registro menos passional e o narrador – excetuando alguns momentos de indignação lírica destacados pelo próprio em itálico – passa a ser mais objetivo e distanciado, sem deixar de marcar sua oposição contundente às opções éticas do ator sem caráter, ex-comunista de fachada que vira colaborador "cultural" do regime ditatorial de Hitler. Não é uma obra à altura dos romances do pai do autor, Thomas Mann, talvez nem do tio do autor, Henrich Mann, mas vale a leitura pelo retrato do protagonista, sujeito sem crença alguma além de sua glória pessoal, e da sociedade alemã em seu funesto pacto com o mal, representado pela irracionalidade do nazismo. Se tivesse fechado o livro definitivamente após o prólogo, teria perdido uma grande experiência de leitura.
Obs.: a edição que li não trazia muitas informações sobre a obra, além de ser baseada num caso real, o do cunhado do autor, de ter sido censurada na Alemanha e, posteriormente, adaptada para o cinema em 1981, ganhando o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Depois fiquei sabendo do histórico do romance (ao ler, não sabia que tinha sido escrito no "calor da hora", achava que era posterior), dos motivos de sua censura na Alemanha (um processo nebuloso, sob o argumento de difamação ao ator real, com cara de resquícios de simpatia ao nazismo, mesmo após a queda do regime de Hitler) e até da suposta opção sexual do trio Klaus, Érika (irmã) e Gustav (cunhado – o ator), todos com inclinações homossexuais. Nada que tenha modificado a essência da leitura feita anteriormente, mas informações que ajudam a compreender o tom de palanque de trechos do romance, algumas passagens ambíguas sobre o comportamento sexual do protagonista e o quanto o pensamento nazista ainda é uma ferida mal cicatrizada, resistente em ideias racista recorrentes, por exemplo, em momentos de crise como o atual.
Eu votei . Na época, parecia ser a melhor opção... Vergonha. Decepção antiga, desde a abstenção no caso Renan...
Por isso, 2010 só votarei no "number of the beast", se nenhuma legenda roubar tal combinação demoníaca (Presidente e Governador: 66, Senador: 666, Dep. Est.: 66666 e Dep. Fed.: 6666).
Recentemente li um clássico. Não sei se a palavra "clássico" é adequada para um romance que pretendia romper com as normas clássicas do romance, ser uma contravenção, contudo, se considerarmos apenas a notoriedade e a resistência ao tempo para classificar obras como clássicas, é um clássico. Estou falando do romance beat On the road, de Jack Kerouac. Um texto delicioso, inquieto, com um ritmo tão alucinante quanto ao da vida de Dean Moriarty, o amigo do narrador-protagonista Sal Paradise, mais protagonista do que o próprio narrador. Apesar de ter sido lido como um hino ao desbunde pela geração 60, esse romance de 1957 não é uma propaganda, uma defesa, de um estilo de vida underground. As vidas das personagens naturalmente vão se dirigindo a tal alternativa, pela total inadequação ao padrão burguês consumista do "american way of life". E tal opção é vivida com momentos de enorme euforia, noites recheadas de bebidas, jazz, sexo, drogas e emoção, intercaladas com longos períodos de tédio, tristeza, sensação de vazio existencial nas beiras de estradas desertas ou em cidades em que não gostariam de estar. Um estilo de vida andarilho movido pela certeza de não gostarem da vida certinha e estável que deveriam levar e, principalmente, pela total indecisão sobre qual outra opção poderiam ter para substituir tal futuro que não desejam.
Durante a leitura, lembrei bastante dos "beats" da Unesp de Assis que conheci quando lá estudei e com os quais convivi na moradia universitária, nos idos de 1999-2000, principalmente do Daniel (típico Dean, escritor e maluco) e do Alexandre (grande leitor desse tipo de literatura). Não sei se hoje continuam tentando levar uma vida com teor "beat" ou se estão na batalha da sobrevivência, empregos, família, a luta diária dentro do Sistema antes odiado... ou se tentam conciliar alguns aspectos de tal visão com as necessidades do cotidiano. Quem sabe?
Som e Fúria foi um grande acontecimento na televisão neste ano, ainda que os índices de audiência não tenham colaborado. Mas deixemos o Ibope para os marketeiros e vamos falar do lado artístico que é realmente importante. A qualidade da produção atingiu um patamar elevado tanto pela atuação dos atores como pela organização dinâmica e inteligente da narrativa ao unir o plano das peças a serem encenadas com a vida fora do palco de modo sutil e antenado com os problemas da arte numa era de intensa preocupação com sua comercialização. Especialmente os capítulos até a estreia do Hamlet foram espetaculares. Gosto de destacar o capítulo antes da estreia, com a crise do protagonista, maravilhosamente interpretado pelo jovem Daniel de Oliveira, como o melhor desta temporada (por sinal, espero que o plano de continuar a minissérie não seja modificado pelos índices de audiência) . Depois, achei que houve uma perda da consistência narrativa pela proliferação de núcleos temáticos, nem todos bem interligados. Talvez a falta de tempo deve ter estimulado tal problema. Principalmente os núcleos do Romeu e Julieta e o da peça brasileira podiam ser explorados mais. Apesar de ocorrer na vida teatral a preparação da montagem de duas ou mais peças ao mesmo tempo, creio que na minissérie isso impediu um bom desenvolvimento da relação da temática das mesmas com o cotidiano dos atores como ocorreu nos episódios relativos à montagem do Hamlet. Contudo, não creio que encerrar a minissérie após o sucesso do Hamlet seria o ideal, afinal havia muitas pontas temáticas em aberto (como financiar o teatro sem sua prostituição, como o Dante iria se livrar do fantasma e assumir sua própria visão artística, problematizar a relação do casal principal evitando um happy end pouco adequado para uma produção relacionada com tragédias shakespearianas, etc.). Apesar dessa pequena ressalva, como um todo, o resultado final foi muito acima da média normal da dramaturgia na televisão, evidenciando que o veículo não é o problema e sim o modo como é comumente usado.