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não verdades - apenas hipóteses interessantes
 


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Novamente estou disponível, profissionalmente falando.

Sou formado em Letras (bacharelado e licenciatura), habilitação Português e recentemente conclui o mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada. Tal formação me possibilita desempenhar algumas atividades: posso lecionar algumas disciplinas (no ensino fundamental e médio, Língua Portuguesa - Gramática  e interpretação de textos, Literatura Brasileira e Literatura Portuguesa, Redação e, em nível superior, Teoria Literária, Introdução aos Estudos Literários, Literatura Comparada, etc.) e posso desenvolver atividades relacionadas com criação e revisão de textos diversos.

Já tive experiências nas duas vertentes. Como professor minha principal experiência foi após passar em concurso público para Professor Adjunto de Língua Portuguesa no ensino municipal de São Paulo. Dei aulas para alunos do ensino fundamental II primeiramente numa escola do Carrão, EMPG Jackson de Figueiredo e, posteriormente, numa escola numa região periférica da zona leste, perto da avenida Águia de Haia, EMEF Profa. Wany Salgado Rocha. Também tive passagens por estágios desenvolvidos em diferentes níveis de ensino (Ensino Médio, EJA, Ensino Superior) e como voluntário em curso pré-vestibular.

Como revisor já desempenhei atividades como freelancer (revisão de trabalhos acadêmicos e textos diversos). Também tive o prazer de trabalhar com a articulista Anna Veronica Mautner digitando e revisando artigos publicados pela mesma em veículos como Folha de São Paulo, Revista Mestres e blog do Marcelo. Minha atividade principal como revisor, no entanto, foi desempenhada no Aché Laboratórios Farmacêuticos atuando num projeto grande de reformulação das embalagens e bulas dos medicamentos da empresa.

Também já desenvolvi serviços diversos como participar da banca de correção das redações de vestibulares da Universidade Metodista (2006/2007) e elaborar questões de Língua Portuguesa para provas de concursos (Sescoop). Também possuo grande habilidade em digitação de textos e dados por causa de algumas experiências profissionais nesta atividade.

Caso conheçam alguma oportunidade relacionada com minha formação ou com tais atuações ou oportunidades em serviços não mencionados afins, favor entrar em contato (kle.santos@uol.com.br). 



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 16h16
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Hipocrisia

Não vou me alongar. Não vale a pena. Mas é preciso marcar posição sobre um ponto que corre subentendido nos debates sobre – para usar um termo que não pode aparecer nos livros das escolas de São Paulo – as “cagadas” da Secretaria de Educação na seleção de livros didáticos e paradidáticos, a saber, um rançoso moralismo totalmente desconectado de qualquer visão da realidade vivida pelos jovens atualmente.

É óbvio que os livros citados nos “escândalos” recentes estão muito mal classificados para a faixa etária a que foram indicados pelos geniais burocratas da Secretaria e, com certeza, dois Paraguais ninguém merece! Haveria DVD pirata até do programa da Luciana Gimenez nos camelôs do centro da cidade. Contudo, no caso dos aparentemente interessantes livros "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol" e “Poesia do Dia - Poetas de Hoje para Leitores de Agora” a atitude de “desclassificar” e excluir as obras do universo educacional ao invés de reclassificá-las para um público adequado formado por jovens acima de 14 anos é tão estúpida ou mais do que os equívocos dos “leitores” da Secretaria – provavelmente, poucos funcionários, mal pagos para a tarefa e pressionados por interesses comercias das editoras e de políticos ligados as mesmas.

Perto do que um garoto ou garota de 13, 14 anos vê, escuta e fala (os ricos, mais no mundo virtual totalmente livre e sem censura da internet do que nos seus viveiros cercados; os pobres, diretamente, cara a cara, no dia a dia – esse sim “horroroso”, Serra – das periferias violentas), mas não lê (assim como não lê quase nada além dos SMS dos celulares, dos textos de MSN, das legendas dos games e dos links da net para vídeos e fotos), poemas irônicos sobre a “formação” de um vilão ou palavrões em HQs sobre o mundo do futebol não são nada demais. Pelo contrário, para falar apenas dos dois casos mais destacados pela imprensa, um texto de Joca Reiners Terron que ironiza o clichê do vilão, do mal absoluto x bem absoluto, veiculado em toda produção pop das telenovelas aos filmes de herói norte-americanos e um quadrinho de Caco Gualhardo zoando a enorme falta de cérebro dos grandes ídolos do futebol, tais obras apenas provocam mentes emperradas por imagens padronizadas a tentarem pensar algo crítico sobre a realidade ao redor, pouco importa que isso seja feito utilizando alguns palavrões e/ou imagens eróticas. Não é o caso, mas mesmo a grande literatura nunca foi feita de textos politicamente corretos e insípidos. Seja na linguagem, seja nos temas, um Henry Miller, um Dostoiévski são recheados de coisas "pesadas" porque a vida é pesada como esses jovens "protegidos" pela onda moralista despertada por tais enganos da Secretaria sabem muito bem. Qualquer pelada entre moleques descalços é uma sinfonia de palavrões maior do que existe em todas as páginas da HQ criticada e imagens pornográficas são distribuídas às nossas castas meninas usuárias de calças hiper-justas por toda cidade nas lonas improvisadas dos vendedores de DVDs piratas (sem classificação etária, até apelidam os pornôs de "educativos"... não deixam de ser, de certo modo). Um moleque, mesmo o da faixa etária que realmente não deveria ter os ditos livros em mãos, se mora na Cidade Tiradentes sabe muito bem o que é o PCC, Uma menina de 13 anos hoje não só sabe palavrões escabrosos e detalhes minuciosos sobre o ato sexual como convive com amigas barrigudinhas e não por causa de muitos Mclanches felizes ou de livros "obscenos", talvez por causa da falta deles para as fazerem ter um mínimo de juízo antes de iniciarem a vida sexual. Dialogar com tal realidade, logicamente com a intenção de acrescentar alguma coisa – seja prazer estético, seja conteúdo crítico – e não somente pegar carona na onda para obter lucro, é uma forma válida de tentar atingir com livros um público que sente ojeriza pela palavra escrita vinculada sempre a "coisas que não entendo".

Não defendo que a escola deva se render totalmente ao universo do aluno como defendem alguns pedagogos "progressistas" em excesso, ao meu ver. Não espero ver leituras de Dom Casmurro sendo trocadas por análises das profundas letras dos funks da Gaiola das Popozudas. Mas creio que é importante até determinada faixa etária tentar fazer uma via de mão dupla. Uma lógica de troca, sabe?! Estilo "mamãe": "Te dou esse chocolate se comer tudo que está no prato". Um dia o prato com comida será o alvo principal,sem necessidade de chantagem e sem a necessidade de dispensar um chocolate, afinal, ninguém é de ferro. Na verdade, o jovem poderá até descobrir que há sabor, em alguns casos um tempero muito forte e atraente, no que pensa ser só comida sem sal e sem cor, mas não é colocando logo de cara um Alencar na mão de um "punheterinho" – vamos usar os termos proibidos pela Secretaria - de 15 anos, ameaçando o mesmo com o fantasma do Vestibular, que ele vai romper seu preconceito contra os livros.

E basta de falso moralismo, afinal, na hora de se livrar de seus filhos os colocando diante da tevê ou do computador esses mesmos pais indignados com as "cagadas" da Secretaria não se preocupam nem por um segundo com a quantidade de merda que estão lhes proporcionando para ter um pouco de paz em casa.

 

KPS - 28/05/2009

 

Texto citado de Terron 

Manual de auto-ajuda para supervilões

Ao nascer, aproveite seu próprio umbigo e estrangule toda a equipe médica.
É melhor não deixar testemunhas.

Não vá se entusiasmar e matar sua mãe.
Até mesmo supervilões precisam ter mães.

Se recuse a mamar no peito. Isso amolece qualquer um.

Não tenha pai. Um supervilão nunca tem pai.

Afogue repetidas vezes seu patinho de borracha na banheira,
assim sua técnica evoluirá.
Não se preocupe. Patos abundam por aí.

Escolha bem seu nome. Maurício, por exemplo.

Ou Malcolm.

Evite desde o início os bem intencionados. Eles são super-chatos.

Deixe os idiotas uivarem. Eles sempre uivam, mesmo quando não
podem mais abrir a boca.

Odeie. Assim, por esporte.
E torça por time nenhum.

Aprenda a cantar samba, rap e jogar dama. Pode ser muito útil na cadeia.
Principalmente brincar de dama.

Ginga e lábia, com ardor. Estômago em lugar de coração,
pedra no rim em vez de alma.

Tome drogas. É sempre aconselhável ver o panorama do alto.

Fale cuspindo. Super-heróis odeiam isso.

Pactos existem para serem quebrados. Mesmo que sejam com o diabo.

Nunca ame ninguém. Estupre.

Execre o amável. Zele pelo abominável.

Seja um pouco efeminado.
Isto sempre funciona com estilistas.

[ in, "Poesia do Dia - Poetas de Hoje para Leitores de Agora", org. Leandro Sarmatz, Ática, SP, 2008 ]

 

 Amostra do "obsceno" humor de Caco Gualhardo

 



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 23h12
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Cony

 

Na última sexta-feira entreguei o exemplar final da minha dissertação de mestrado "Da paixão inútil: a escrita existencialista de Carlos Heitor Cony" ao autor pesquisado em seu escritório no Catete - Rio de Janeiro. Além do prazer sempre proporcionado por uma conversa com Cony, tive a sensação de cumprimento de um dever - não por obrigação acadêmica, já que tal prática não é praxe, nem consta em qualquer manual de pesquisa sobre autor vivo, mas por sentir ser o mínimo a ser feito depois da ajuda recebida durante a pesquisa e por ter tido grandes momentos durante a leitura de suas obras nesses longos anos que passarão do primeiro contato (na época nem pensava em cursar Letras ainda) com seu romance de estréia, O Ventre,  e o momento atual, poucos meses após concluir um texto crítico extenso e, ao meu ver, relevante sobre a mesma obra.

Abaixo segue o resumo da dissertação:

Nesta dissertação é analisada a presença de elementos do movimento filosófico denominado existencialismo, especialmente os provenientes da leitura da produção ficcional de Jean-Paul Sartre (1905 – 1980), na prática literária do romancista brasileiro Carlos Heitor Cony (1926 -  ). Para tanto, se desenvolveu um estudo comparativo das distintas versões de seu romance de estréia, O Ventre (1958), produzidas ao longo de mais de 50 anos de existência. Com base nessa construção de um olhar crítico sobre a obra e sobre as tendências que motivaram sua escrita e, principalmente, suas reescritas, delineadas pela leitura das alterações empreendidas de uma versão para outra do romance, se buscou compreender a dinâmica dessa relação intertextual flagrada no andamento de seu processo de criação. Este estudo pretende ressaltar a lógica complexa desse diálogo, marcado por momentos de aproximações e afastamentos, em consonância com as situações particulares em que os autores estavam envolvidos e seus objetivos específicos almejados, cada qual pertencente à época, local, situação histórica e política, formação pessoal e circuitos intelectual, cultural, literário e mercadológico distintos. Almejou-se, por fim, refletir sobre o complexo mecanismo das trocas culturais em funcionamento no seio da criação literária e delinear os pressupostos, as concepções de literatura – sua função pessoal e/ou coletiva, sua posição na sociedade, sua face autocrítica – subjacentes ao fazer artístico dos escritores anteriormente mencionados.

 

 Caso algum pesquisador queira conhecer meu trabalho, entre em contato (kle.santos@uol.com.br)



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 20h47
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Aterrar

 

“A distância é a medida. Tudo é uma questão de perspectiva. Nem muito perto ao ponto de enxergar apenas uma parte; não tão longe ao ponto de não perceber os detalhes. Uma lógica antiga, nada que um grego qualquer já não tenha dito de um modo melhor, para variar.” –  escreveu incomodado em seu notebook, sem ainda postar em seu blog, o passageiro da poltrona 25A  do voo 1572 da Gol.  Não gostava de ideias repetidas, alimentava desde os tempos de faculdade um ingênuo anseio por novidades, minado dia a dia pela repetição dos próprios atos e pensamentos e pela frustante descoberta de obras antigas que – muito antes dele nascer – já diziam o que ele acreditava ter sido um insight seu, pessoal, inédito, único.

Édouard Tissot considerava-se bem mais do que um passageiro. Após conexão em São Paulo, vindo de Paris, nesta breve hora que faltava para pousar no aeroporto Santos Dumont para sua vernissage numa galeria da Barra da Tijuca, tentava acreditar piamente na unicidade de sua existência. Só isso justificava a distinção, o destacar-se, ser o ponto vermelho na multidão cinza, estar neste avião, sendo esperado em lugar tão distante e por pessoas, quase todas, desconhecidas. Pautou todas suas escolhas pela busca consciente de se distanciar do comum. Abandonar as emboloradas inovações modernistas entronizadas nas cátedras das anteriormente combatidas Escolas de Belas Artes, abraçar o desprezado vídeo como forma de expressão artística nos 80, não compartilhar litros de Johny Walker com ressentidos de 68, se reinventar ao usar as novas tecnologias... Escolhas, conscientes, às vezes até contrárias às suas predileções. Secretamente amava os impressionistas (algo que críticos menos míopes já haviam percebido nas entrelinhas de algumas de suas instalações), mas nunca cedeu ao desejo de dar continuidade aos seus croquis criados nesta linha em momentos de tédio com as dificuldades técnicas encontradas durante a realização de suas misturas de ferramentais tecnológicos.

“A distância, a perspectiva. Nem perto, nem longe. Do ponto de observação e da acuidade visual do público depende o efeito estético de qualquer obra, reles ou prima.” – reescreveu. Pareceu-lhe mais moderno, mais apropriado para desenvolver o resto de seu texto, uma digressão pseudoteórica sobre a técnica da instalação multimídia, mas, mesmo assim, inegavelmente o teor continuava rançoso, rememorando gregos, geniais e petulantes, sempre presentes. O passado, os hábitos, o comum. Fantasma ao encalço. Enquanto um aviso, em duas línguas distintas da sua, sobre a aterrissagem próxima ressoava pela aeronave, levando-o a fechar o notebook e recolocar o cinto, Édouard entediava-se previamente com o compromisso que ocuparia boa parte de sua noite. Foi inovador, inegavelmente, decidir estrear seus novos experimentos – como denominava suas criações buscando aproximar-se da linguagem científica para chocar alguns críticos tradicionalistas – num local distante dos grandes centros da arte mundial. Aproveitou-se, necessário admitir, do incentivo do Governo francês, imiscuindo-se em transações diplomáticas, trocas culturais forçadas bastante questionáveis. Pouco se lixava para a patrulha vermelhinha, se o dinheiro vinha dos Médicis, do PC ou de Sarkozy, considerava a arte independente e superior a tais questões. No entanto, tirante o local, a essência do evento permanecia irritantemente idêntica: canapés, drinks, sorrisos amarelos, elogios vazios, análises de corredor ridículas, trocas de telefones destinadas à futura exclusão da agenda do celular, negociatas dos mercadores do Templo, alguns flertes de curtíssima duração, etc. A sombra da rotina pairando sobre toda e qualquer mudança. Pensava ter escapado desse perigo ao triunfar na carreira artística, mas, mesmo evitando a burocratização da atividade promovida por alguns colegas da profissão, seus dias estavam longe da aventura sonhada na juventude.

O mistério do pó se acumulando sobre um objeto em constante movimento. Acordar em Buenos Aires cheirando tabaco e ao lado de um vestido longo vermelho, almoçar em Milão com um grupo de modelos da Dolce & Gabanna antes de desfile que utilizou suas imagens como cenário virtual, à noite participar de um happening coletivo multinacional de arte digital diante da Villa Giulia em Roma, com direito a uma esticada até Amsterdã, graças ao jatinho de um dos multimilionários curadores, para badalar, curtir haxixe e prostitutas na Red Light District. Um sonho, resistente como aço. Mas não inoxidável, sujeito às corrosões do tempo e da repetição como qualquer outro. Há algum tempo as poltronas de um Airbus ou de um Boeing já não eram mais tão confortáveis e as cidades todas iam se parecendo cada vez mais. Pelo pouco que viu por entre a neblina lhe foi impossível distinguir São Paulo de qualquer outra breve visão aérea da Cidade do México ou de Chicago.

No fundo, seus dias não eram tão romanescos assim. Nada parecido com a anedota de suas aventuras realizadas em quatro países, rodeado de várias belas mulheres, em menos de 48 horas, que gostava de contar nos raros reencontros com os amigos dos tempos de faculdade para vê-los salivar. Ex-rapazes igualmente delirantes em seus sonhos, agora homens feitos ("Ou seria melhor dizer desfeitos?" - ironizava) com empregos fixos, assalariados (bem, mas assalariados), pais de família, com horário para voltar para casa, contas atrasadas, duas viagens longas por ano, no máximo... Deixava-os com tal sample fictício de algumas de suas experiências reais, às vezes, na prática, nem tão interessantes assim – as modelos, por exemplo, eram entediantes, preocupadas somente com as câmeras dos jornalistas convidados para cobrir o evento –, embasbacados, aos olhos deles retornando como um herói da masculinidade para seu loft de solteiro maravilhosamente decorado, projetado para ser totalmente high-tech, e completamente vazio no centro de Montpellier, no caso para apenas preencher sua noite com a análise de um contrato cheio de números e porcentagens que seu agente lhe passara com urgência na mesma tarde do encontro.

Aos poucos, o que se passava na janela começou a anular seus pensamentos. Em processo de pouso, voando muito baixo, viu um mar incrivelmente claro sob um sol intenso, próximo a algo que lhe pareceu uma lagoa da mesmíssima cor. De certa forma, o próprio mar em alguns pontos toma a forma de um lago por estar quase completamente rodeado por sinuosas pequenas montanhas verdes. Uma orla inteira brilhando com areias brancas, circunscrevendo os limites de uma cidade, vigiada por embarcações por todos os lados. Como num passeio turístico, o avião sobrevoava em círculo aquela paisagem, permitindo ver detalhes de mansões construídas em morros arborizados, hotéis luxuosos, piscinas, marinas, o próprio aeroporto em que irá pousar tão próximo das águas, uma ponte enorme investindo insanamente contra o mar, um pequeno castelo numa ilha perto da pista de pouso, tudo junto num espaço minúsculo formando um conjunto de beleza estonteante ao ser englobado num único take, naquela exata distância que diretor algum poderia premeditar e que o avião proporcionou pela simples necessidade de ir aos poucos diminuindo a altura e a velocidade para pousar. Havia sido avisado da fama da Cidade Maravilhosa e mesmo do quanto era especial aterrar naquele local, algo descrito numa canção de Tom Jobim como lhe dissera Vieira Lima, amigo brasileiro, escultor, que Édouard considerava extremamente indulgente para com a outra fama da cidade, mais recente, e também bastante conhecida na Europa, mas, envolvido em suas lamúrias, tinha esquecido completamente até mesmo para onde estava indo e todas suas prevenções irônicas prévias contra o local. Talvez por isso, tomado de surpresa, aqueles breves três, no máximo, quatro minutos, injetaram uma lufada de ar no sério passageiro francês, soprando a poeira de um rosto imobilizado num esnobe ar blasé. Apesar de não apreciar que suas emoções coincidissem com a de tantas outras pessoas, famosas ou anônimas, sem novidade, estranheza ou diferença para com o comum, naquele instante o impacto da beleza predominou sobre seu culto da individualidade e o passageiro da poltrona 25A saiu sorridente como todos os demais turistas em suas primeiras fotos em solo carioca.

 

KPS - 14/05/09



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 23h48
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Fim e começo

Hoje, graças a minha esposa que pôde ir no horário da tarde até à USP (por que tudo que envolve a pós-graduação das faculdades públicas não funciona após às 17 horas? Para afastar os inconvenientes trabalhadores?), cumpri a etapa final do meu mestrado, a entrega da dissertação aprovada e revisada. Muito bom conseguir alcançar esse momento, principalmente tendo em conta todas as dificuldades enfrentadas... Creio que, em geral, realizei bem a tarefa proposta, no começo bastante improvável de ser finalizada com êxito, devido minha formação deficitária em muitos pontos (apesar de ser um leitor e estudante esforçado) e a condição financeira bastante desfavorável para tais vôos num universo tradicionalmente reservado aos preparados desde tenra infância em leituras indicadas pelos pais cultos, falantes de duas ou mais línguas estrangeiras, possuidores de bens intelectuais e financeiros que servem de estímulo e tela de proteção para os saltos - apesar de tudo isso, nem sempre bem sucedidos - dos filhos. Sem o "paitrocínio" e sem amparo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e companhia, tive conciliar tal tarefa com atividades bastante distintas do labor mental. Trabalhar durante uma pesquisa acadêmica não é fácil. Nem a graduação sozinha é fácil de se levar, com a devida seriedade, trabalhando oito horas por dia, quanto mais uma pós-graduação; apesar da carga horária em aulas ser bem menor, o tempo exigido em pesquisa, leituras e, principalmente, escrita e reescrita de seu trabalho é bem maior. Sem querer me aproveitar de tal "desculpa sociológica", considero que talvez em alguns pontos poderia ter ido além, talvez ter uma maior coerência em um ou outro ponto, poder me aprofundar mais em outros ou mesmo não ter me concentrado tanto em aspectos não essenciais... mas, creio que fui bem, e, meus avaliadores, entre eles meu orientador, consideraram até que fui um pouco além do que é exigido atualmente em pesquisas nessa etapa de mestrado.

Terminar algo nem sempre é uma tarefa fácil. Por mais que haja uma inegável sensação de alívio por ter alcançado um objetivo, ultrapassado uma etapa, cumprido uma promessa, mesmo que de um modo que quase nunca se assemelha ao imaginado no começo da jornada, por outro lado, surge sempre como pano de fundo do prazer uma mistura de falta com ansiedade. A falta provém da perda de uma preocupação (em alguns momentos prazerosa) constante. A ansiedade surge da necessidade de uma substituição e do medo de não saber escolher acertadamente o que pode preencher devidamente o lugar que sobrou vazio. Abre-se novamente o espaço para criar e, com ele, ressurge os temores idênticos de anos atrás de não saber como fazer, o desconhecimento do caminho, aquele temor de não ser capaz que, mesmo após a realização de algo semelhante, não deixa de aparecer para tentar desestimular. Somando com a memória recente das dificuldades passadas com as presentes e com as que provavelmente virão no futuro, tudo sugere uma procrastinação de tal necessidade. Somando-se às outras exigências prementes de sobrevivência pessoal a ocupar quase que exclusivamente o pensamento, deixando pouco espaço para preocupações abstratas com o destino do homem, para as divergências entre pensamentos de filósofos, para análise de filigranas de estilo, para o saborear do inexistente e o sonho do imaginário e suas conexões – tão pouco visíveis para o olhar pragmático – com o "real", parece complicado reiniciar. Mas o raio cairá novamente, não no mesmo lugar , mas um pouco mais adiante. Haverá reincidência futuramente. Sempre há brechas e sempre há vontade de ir além. Só o fato de estar digitando tais reflexões soltas ao invés de estar diante da tevê assistindo a final do BBB – como minha proveniência e minha situação socioeconômica sugeriria ser a ocupação ideal para esta noite -  já indica que ainda desejo continuar tentando invadir terrenos que, teoricamente, me são vetados.

 



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 00h00
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Tango em dois tempos



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 00h18
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Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 00h17
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Tristeza

Jogo da seleção. Além do time inteiro, tirando o goleiro, dar medo, o que marcou mesmo foi mais uma atuação medíocre do ex-craque (dizem que não existe isso, é como andar de bicicleta, mas...) Ronaldinho Gaúcho. Ontem deu dó... se eu fosse pai, amigo ou mesmo empresário dele impedia o cara de entrar em campo daquele jeito, é sujar o próprio nome, enlamear a própria história... Exagero ou não, antes de 2006 o cara estava mostrando um futebol que levava muitos a compará-lo com Maradona, Garrincha, Zico e até mesmo (heresia, mas... empolgação é empolgação) Pelé. Ontem mostrou um futebol parecido com o do Souza do Corinthians ou pior. Pior que ainda é novo, não é igual o Ronaldão que já está pra pendurar as chuteiras (e mesmo assim, jogando mais no momento). Pra mim, é um dos casos mais tristes de desperdício de carreira de um jogador de futebol... depois do caso Maradona, sem trocadilhos, que poderia ter ido muito além do que foi sem as drogas. Espero que ele mude isso, ainda é tempo, mas não vejo nele aquele sangue no olho, aquela vontade de superação. Quando foi pro Milan e quis - ou quiseram (Ricardo Teixeira, Globo) por ele - liderar a seleção na Olímpiadas até parecia que estava pra renascer das cinzas, mas foi só uma labaredazinha, nem deu pra aquecer a mão do torcedor congelado pelo futebol ártico da seleção do anão tapado. Com aquele sorriso fixo que se antes significava alegria de jogar bola e agora está parecendo ser de burrice, sorriso de quem não sabe o que está acontecendo ou não está nem aí, Ronaldinho parece ser muito acomodado. Sentou no trono e acha que já fez o que tinha que fazer, parece mesmo nem se importa em ser reserva... assim não tem jeito de dar a volta por cima.



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 22h06
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Os detalhistas não são felizes

Só crê que está fazendo um bom negócio quem não lê as letras miúdas dos contratos.

KPS - 20/03/2009

 



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 21h12
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Sangue

"De todo o escrito só me agrada aquilo que uma pessoa escreveu com o seu sangue. Escreve com sangue e aprenderás que o sangue é espírito." - Nietzsche



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 22h20
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Aos artistas

"Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do quotidiano tornem um homem duro ou cínico o bastante para ele permanecer indiferente às desgraças e alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave onde ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu em sua vida. Bendito seja quem souber se dirigir a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca autodestruição, a que por desencanto ou medo se sujeita, e inquietá-lo para as lutas comuns de libertação." Plínio Marcos, Balada de um Palhaço



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 22h57
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o artíficio

"Le tout est de savoir s'y prendre, de savoir concentrer son esprit sur un sel point, de savoir s'abstraire suffisamment pour amener l'hallucination et pouvoir substituer le rêve de la réalité à la réalité même.

Au reste, l'artifice paraissait à des Esseintes la marque distinctive du génie de l'homme."

J.-K. Huysmans - À rebours



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 22h37
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Sugestões de alterações nas leis penais

Gostaria de inserir dois novos adendos na legislação criminal brasileira:

O primeiro parágrafo:

Está sujeito à prisão perpétua quem utilizar aparelhos sonoros (celular com MP3, rádio ou mesmo na modalidade conversa no viva-voz, tevê de mão, cd player, micro ou mini system, mini-games, rádio portátil, walkman, incluindo utilização em volume exorbitante do fone de ouvido) em transporte coletivo.

O segundo parágrafo:

A emissão da modalidade de música denominada "Funk carioca" é considerada agravante, podendo acarretar na transferência da punição para pena de morte.



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 21h48
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O Homem de La Mancha



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 21h34
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De alianças

Não há uma forma ideal de aliança. Na própria Bíblia, o tido como mais que perfeito adotou diversos modos de simbolizar sua reiterada fidelidade, seu compromisso para com inconstantes turbas humanas, sua paixão sem sentido por um espelho fragmentado e, talvez, distorcido de si mesmo. De uma singela ilusão de ótica no céu após longo período de cruel dilúvio ao sangue derramado numa cruz em que estaria seu próprio ser transmutado em carne; distintas maneiras de insistir num pacto, muitas vezes quebrado pelas tentações do mundo. O que não muda, o que deve ser mantido, mesmo nos momentos em que tudo conspira para o rompimento do contrato, sem pagar multas, para soltar pragas no Egito, para destruir em acessos de ira as construções irracionais da ambição humana, os ídolos de bronze, os comerciantes do templo, é uma incondicional e inexplicável esperança no poder transformador do amor. Seja coroado do mais caro brilhante ou apenas um simples metal folheado por fina camada dourada, o que está por trás é essa crença em que podemos ser melhores juntos, na busca por algo maior, do que isoladamente.



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 21h22
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