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não verdades - apenas hipóteses
 


Rebeca

Nasceu minha filha. A notícia é velha, já se passaram 4 meses e 18 dias, mas só agora consigo escrever aqui. O nome dela é Rebeca. É inexplicável o amor que um ser tão pequeno e frágil pode despertar, mas também é imenso o peso da responsabilidade. Saber que suas escolhas influem intimamente em todos os passos de um ser que não possue outra opção além de lhe seguir e que não consegue sequer manifestar claramente se está gostando o não do rumo adotado é inquietante, às vezes. Mas, pesando tudo, eu e minha esposa estamos fazendo o que podemos para que seus dias sejam bons e sua vida seja bem encaminhada, com dores e problemas, sim, afinal, desde cedo descobrimos que não podemos ter tudo que queremos, mas evitando ao máximo sofrimentos passíveis de serem evitados e tentando dar todo o carinho que ela merece.



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 15h12
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Michael Moore sobre a provável execução de Bin Laden

‎10 years, 2 wars, 919,967 deaths, and $1,188,263,000,000 later, we managed to kill one person...



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 19h31
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A importância de um rodapé

Jean-Jacques Rosseau é considerado um idealista. Sua noção de que o homem é bom em estado natural e apenas a civilização o corrompe, de certa forma, o condenou a ser taxado como um romântico (muito antes de realmente surgir o movimento romântico), na pior acepção da palavra. Um cético como o Dr. House, por exemplo, costuma enxergar em Rosseau as piores armadilhas do pensamento rumo à autodestruição das ilusões da boa vontade. Contudo, sua importância para a história da civilização é inegável, especialmente ao ser um dos embriões das lutas pela democracia e pela liberdade na Europa. O seu "Contrato Social" foi revolucionário em suas posturas, para a época, verdadeiramente heréticas, afinal, destronou Deus do cargo de dono do poder (poder repassado para monarcas como direito natural e inquestionável) e afirmou que, independentemente de quem exerça o poder, ele é do povo e deve ser exercido para o bem do povo. Tal afirmação, hoje verdadeiro truísmo - ao menos teoricamente -, não livra o autor de sua fama de idealista, pois é quase desprovida de amparo na realidade quanto a tese de que o homem é naturalmente bom. Mesmo as democracias modernas estão longe de serem uma representação clara da vontade coletiva... No entanto, o autor suíço de nascimento não era cego aos impedimentos reais para a concretização de suas bem intencionadas propostas sociais. Em uma nota de rodapé fica evidente a diferença entre o ideal e a realidade. Ao defender que o contrato social impede que o mais forte seja o detentor único do poder, Rosseau afirma: "o pacto fundamental substitui por uma igualdade moral e legítima o que a natureza pode ter criado de desigualdade física entre os homens; podendo ser desiguais em força ou em gênio, eles se tornam todos iguais por convenção e direito". Perfeito, em tese. Em nota de rodapé surge a realidade numa declaração extremamente atual sobre a falácia dos modelos de democracia representativa quando se mantém a desigualdade social extrema típica das sociedades capitalistas:

"Sob os maus governos, essa igualdade é apenas aparente e ilusória; não serve senão para manter o pobre em sua miséria e o rico em sua usurpação. Na prática, as leis são sempre úteis aos que possuem e prejudiciais aos que nada têm. Donde se segue que o estado social só é vantajoso aos homens à medida que todos tenham alguma coisa e ninguém possua em excesso."

 



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 17h35
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Ana Karênina

Não é necessário entrar em detalhes sobre um romance como Ana Karênina de Tolstói. Obra monumental, característica do romance do século XIX, procura abarcar todos os aspectos da vida russa do período retratado com um acuidade magistral, apesar de um pouco entediante para um leitor moderno, acostumado com mais ritmo e menos descrição, reflexão e, principalmente, diálogos. Em época de computadores portateis, jogos eletrônicos, celulares mirabolantes, leitores digitais, o diálogo ao vivo e em voz alta e a reunião social apenas para fazer isso se tornou algo consideravelmente anacrônico, apesar de existir. Por isso, ao se deparar com as dezenas de cenas longas de jantares, encontros, conversas em grupo que são a essência de um romance de costumes como o de Tolstói, um leitor atual pode ficar desnorteado ou achar que o livro está estagnado, sem ação.

O auge do romance ocorreu no século XIX. Nesse ponto, com o apoio essencial dos jornais que publicavam diariamente folhetins em suas páginas, esse gênero literário se tornou o porta-voz da sociedade. Antes do desenvolvimento completo das ciências humanas e da especialização dos saberes, o romancista tomava para si a árdua tarefa de resumir em suas páginas tudo que estava acontecendo ao seu redor, por isso que vemos em Ana Karênina reflexões teológicas, políticas, sobre economia rural, juízos morais, análises psicológicas, discussões sobre política externa etc. Comparar obras como as de Tolstói, Eça, Flaubert, Dickens, Balzac com o romance contemporâneo é bastante injusto. Os novos artistas não pretendem dar conta de todo universo e, mesmo se o quisessem, já não podem alimentar a ilusão de serem capazes após toda a multiplicação e diversificação de saberes, visões, opiniões ocorridas no século XX. A objetividade - algo questionável, mesmo no período nobre do realismo - não está mais em pauta e o fôlego descritivo, numa época em que a disseminação de informações é atordoante, seria algo absurdo, que talvez só teria validade como paródia. Creio que o romance estava nos jornais nos novecentos exatamente porque também era parte (lúdica, mas parte) de um esforço por formação cultural de uma opinião pública nascente e difusão de informações tanto quanto as reportagens propriamente ditas. Atualmente, até os bons jornalistas já sabem que a informação em si já não é uma questão... a literatura já sabia disso desde o começo do século XX. 



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 14h53
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Sol de Maiakóvski - Augusto de Campos



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 17h43
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Nietzsche - fascínio e receio

Friedrich Nietzsche é uma leitura essencial para quem gosta de filosofia, mas bastante perigosa para quem lê tudo ao pé da letra, por assim dizer. Sua exaltação da vontade de poder, especialmente em obras mais polêmicas e provocativas como "Além do bem e do mal", em alguns momentos parece justificar a utilização ideológica que sua irmã Elizabeth e os nazistas deram para seus aforismos radicais, contudo, se lermos tudo sem um mínimo de capacidade de filtragem, de discernir o que é expressão do que é a ideia, a essência do discurso, até a Bíblia se torna um livro extremamente nocivo. Por sinal, não faltam exemplos de mau uso do "livro-mór" ao longo da história.

Separei um passagem de "Além do bem e do mal" que remete ao título deste blog, desconhecida quando criei este espaço que de tempos em tempos visito para colocar algumas palavras para ninguém ler...rs.:

"Em casos raros e isolados pode realmente estar implicada aí tal vontade de verdade, alguma coragem descomedida e aventureira, alguma ambição de metafísico ao posto perdido, ambição que, afinal, sempre prefere um punhado de 'certeza' a um vagão inteiro de belas possibilidades; pode até mesmo haver fanáticos da consciência puritanos que preferem morrer estendidos sobre um nada certo a fazê-lo sobre um algo incerto. Mas isto é niilismo e sinal de uma alma desesperada, morta de cansaço: por mais valentes que os gestos de semelhante virtude possam parecer". Nietzche



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 10h48
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"A vaidade onde impera a miséria."

Há um verso na letra do rap abaixo que leva a pensar nas causas reais da violência entre jovens na periferia (não apenas na periferia). Por mais que se martele que a pobreza motive a criminalidade, hoje muitos jovens não aderem ao crime por passar fome ou realmente não ter absolutamente nenhuma possibilidade de conseguir um emprego (nem que seja o chamado subemprego ou trabalho braçal). O que realmente "pega" é uma questão de status, da auto-afirmação, por meio da apropriação (por vias ilegais, as únicas possíveis a curto prazo) dos fetiches das mercadorias elevadas ao Olimpo pelo poder fascinante do capital, estimulando a busca por dinheiro fácil e perigoso... mais perigoso do que fácil, na verdade. Não é para sobreviver, muitas vezes, que um adolescente se arrisca no tráfico. No entanto, o desejo de ter um Nike no pé, desfilar numa Kawasaki pela "quebrada" e, teoricamente, pegar todas nos bailes funk por só andar com óculos Oakley e roupas de marca originais motiva muitos a buscarem alcançar dinheiro rapidamente. Sem contar que, na moral invertida dos tempos atuais, o sujeito respeitado é o que consegue o que quer sem suar muito... ter essas coisas após 5, 6 anos trabalhando das 7 da manhã às 8 da noite com aquele kit pobreza (ônibus lotado, marmita, esculacho de patrão, bater cartão etc.) não dá moral junto aos colegas do bairro, ao contrário de desfilar o dia inteiro sem fazer nada, só fiscalizando o movimento do tráfico, ou só dar uns "corres" uma ou duas vezes por semana para levantar o mesmo que um trabalhador ganha em meses de serviço diário.



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 16h37
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Os subterrâneos do Vaticano

"Existe o romance e existe a história. Prudentes críticos têm considerado o romance como a história que poderia ter sido, e a história como o romance que se realizou. É preciso reconhecer, com efeito, que a arte do romanciste muitas vêzes supera a verossimilhança, bem como os acontecimentos, por vêzes, se riem dela. Sim! certos espíritos céticos negam os fatos, desde que saiam fora do comum. Não é para eles que escrevo." - André Gide

"Os subterrâneos do Vaticano" de André Gide é um livro irregular, talvez, por isso mesmo, surpreendente. O começo da obra é tão tradicional, "carola", meio moralista, que tive vontade de realmente abandonar o romance e ir ler outra coisa mais interessante. Mas resolvi pesquisar na internet para ver se o livro era tão ruim como eu imaginava... As opiniões favoráveis me motivaram a continuar a leitura. Realmente, a obra dá uma quinada sensacional após um começo desestimulante. André Gide pode ser considerado um dos maiores apóstatas da literatura. Durante sua carreira participou e depois renegou grupos literários, o marxismo, a literatura tradicional (a crítica ao enredo lógico e a personagem linear é um tema caro ao romance citado), o catolicismo, a heterossexualidade etc.  Em sua vida mudou muito, ousou e, apesar de altos e baixos, em alguns momentos alcançou bons frutos. O romance em pauta, por exemplo, antecipou um tema central do romance moderno, o ato gratuito do personagam chamado de absurdo, que ficou marcado como central em obras como "Crime e Castigo" e "O Estrangeiro".



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 18h18
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Versos Satânicos

Uma obra literária pode ser álibi para um assassinato ou a pretensão de se cometer um? Atualmente pode soar uma imbecilidade tal suposição, mas não em todos os pontos do mundo. Num mundo ocidental sem sérias convicções políticas, morais, religiosas ou sexuais, onde o "tudo é relativo" ameniza consideravelmente os confrontos de posições, realmente nenhuma produção artística pode produzir mais do que, no máximo, espanto ou constrangimento... quando muito algumas "pseudorevoltas" como foi o caso do urubu na Bienal e as críticas dos ambientalistas de plantão.  Quando a obra vai muito contra o status quo, no máximo, o público (leia-se "mercado") a ignora levantando contra a mesma um sonoro silêncio. Nem sempre foi assim e, em alguns pontos do mundo e para algumas pessoas ainda não é.

"Os versos satânicos" de Salman Rushdie é a prova de que para alguns há verdades absolutas, nada relativas, que não podem ser contrariadas, nem sequer postas em questão, talvez nem ao menos mencionadas, sob pena de causar uma real revolta e até pretensões sérias de atos de violência contra o ousado que tocar no assunto. A enorme obra de Rushdie tocou em muitas questões polêmicas (a imigração indiana, a colonização britânica, a falsa imagem vendida pela Inglaterra ao mundo, o vazio dos meios de comunicação de massa, a panacéia de uma pureza nacional em qualquer ex-colônia, a síndrome de cachorro vira-lata do intelectual proveniente do terceiro mundo, a ideia rasa dos estudos culturais de que todos as "minorias" podem ser abarcadas dentro de uma mesma lógica quando, muitas vezes, possuem pontos de conflitos grandes demais para serem descartados numa pretensa futura união  etc.), no entanto, nada disso causou mais revolta do que o diálogo com a tradição mulçumana. Ao vincular um dos protagonistas, o ator indiano Gibreel Farishta em seus delírios ao arcanjo Gabriel e, por consequência, às histórias da relação entre o mesmo e Maomé (Mohamed, no livro chamado de Mahound – termo pejorativo), especialmente o episódio tabu no islamismo de alguns versos "ditados" pelo anjo em que Maomé abre exceções em sua contumaz crítica ao politeísmo de sua época ao elogiar três divindades famosas em sua cidade para agradar a então pouco receptiva população de Meca, versos depois renegados, Rushdie provocou a ira das alas radicais do islã. Na verdade, falar em radicalismo e islã é quase uma redundância, pelo menos em alguns pontos do mundo após a revolução dos aiatolás.

Uma obra de ficção não é isenta de críticas, nem tudo é válido só porque é literatura ou uma sátira em jornal (caso mais recente de obra que levou a ira de islã), mas tocar em pontos nevrálgicos da civilização é uma das grandes funções da arte, algo defendido dentro da própria obra numa das falas do poeta satírico Baal, adversário de Mahound. O ocidente, de certa forma, se livrou de reações tão radicais aos artistas que tocam em pontos sensíveis de sua formação, talvez até porque não leva mais tão à sério a própria arte... – apesar de estarmos ainda longe da plena tolerância, vide os casos de homofobia tão recorrentes –, no entanto, não pode condenar tais atitudes de parte do mundo árabe como se nunca tivesse incorrido no mesmo erro. Uma obra como "O Evangelho segundo Jesus Cristo" de Saramago em outras eras poderia muito bem acabar numa bela fogueira (não só a obra como o autor também), além das críticas pesadas do Vaticano que sofreu. Ao tocar na questão da manipulação religiosa de populações, Rushdie oferece uma proposta de reflexão sobre os perigos de qualquer totalitarismo e a resposta que recebeu apenas reforçou a pertinência de sua observação como ficou evidente alguns anos depois com a explosão dos atos terroristas pelo mundo relacionados com a questão religiosa-política  (por sinal, o romance abre com um atentado em um avião).



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 21h28
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Professor: profissão perigo

Ultimamente a mídia está dando um considerável enfoque aos casos de estudantes agredidos em escolas pelos próprios colegas ou mesmo por funcionários das instituições de ensino. A abordagem é justa e a indignação louvável, no entanto, a análise sempre peca em nunca dar o respectivo destaque ao número não menos respeitável de profissionais do setor educacional - especialmente público, mas não apenas - alvos de diárias agressões verbais e muitas vezes de agressões físicas por parte de alunos dos mais distintos níveis de ensino.

Em parte, a culpa desse descaso com a situação caótica vivenciada nas salas de aulas por professores, inspetores de alunos e, às vezes, até por coordenadores e diretores de escola é da própria política do silêncio das instituições que, no caso das particulares, visando o lucro e a boa imagem, ou, no caso das públicas, por medo do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e de processos administrativos promovidos pelas Secretarias de Educação, sistematicamente abafam as constantes violências físicas e morais sofridas pelos funcionários. Por outro lado, a crença de que a escola é um lugar mágico, povoado por seres fantásticos, capazes de resolver todo o complexo conjunto de problemas socias, psicológicos, morais, familiares que acompanham cada aluno que ingressa no sistema de ensino, leva a população a considerar um problema do educador a violência que o mesmo sofre e, por vezes, até a que seu próprio filho apresenta contra outros alunos. Essa hipótese é corroborada por muitos pedagogos que, do alto do palácio de cristal das catédras de universidades, bem longe de classes superlotadas de alunos totalmente indisciplinados, defendem que a incapacidade do profissional da educação de entender e dialogar com a realidade de cada aluno é a causa da violência vigente no cotidiano escolar. Somado a tudo isso, a inimputabilidade do menor de idade, levada a um extremo que prejudica a própria formação do sujeito ao negar qualquer possibilidade de punição ao mau comportamento (até mesmo instrumentos menores como suspensão, retenção, expulsão são negados na rede pública, quanto mais processos na esfera judicial...) tornam o adolescente incontrolável uma espécie de semideus, um herói da escola, a cada ato de grosseria, rebeldia ou mesmo violência que comete e não é punido. Por sinal, consciente dessa "proteção", muitos ainda usam tal recurso como forma de coerção aos profissionais, ameaçando usar "seus direitos" quando são reprimidos verbalmente durante seus excessos diários. Daqui a pouco, o professor vai apanhar na cara e ainda terá que pedir desculpas ao aluno e aos pais...

Resultado de tal equação é um número cada vez maior de licenças médicas, afastamentos, faltas, abandono de emprego e um despretígio progressivo da profissão educador dentro da sociedade. Hoje quando uma pessoa comenta que é professor numa roda social escuta apenas comentários do tipo "Coragem, hein?!", "Como você aguenta?", "Mas, você está procurando outro emprego?", "Estudou tanto pra isso..." de tal modo a situação vivenciada nas escolas é de conheimento de todos.

Um sujeito, pouco importante na história de uma ciência, muitas vezes, usada como muleta por psicopedagogos que mal a compreendem, chamado Sigmund Freud afirmou certa vez que civilização é repressão. Por mais que tal conceito, dito de tal forma, pareça reacionário e, por isso mesmo, levantou manifestações contrárias como a de Marcuse, é inegável que na formação do caráter, tanto na esfera familiar como na esfera pública da escola, o controle é uma parte essencial da manutenção de padrões éticos mínimos para termos uma civilização. Talvez, a desautorização da sociedade ao papel da escola em tentar difundir tais padrões revele uma falência dos mesmos... Neste caso, pode ser que está chegando a hora de discutir a necessidade da própria escola e sua função em vez de querer que profissionais, sem nenhuma estrutura de proteção, tentem controlar uma bárbarie que impera dentro e fora de seus muros.



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 18h28
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Poetas em tempos de indigência

"Mas nós, amigo, chegamos demasiado tarde. Certo é que os deuses vivem,

Mas acima de nós, lá em cima, noutro mundo.

Aí o seu domínio é infinito e parecem não se importar

Se estamos vivos, tanto nos querem poupar.

Pois nem sempre pode um frágil vaso contê-los,

O homem apenas algum tempo suporta a plenitude divina.

Depois toda a nossa vida é sonhar com eles. Mas os erros,

Tal como o sono, ajudam, e a necessidade e a noite fortalecem,

Até que haja suficientes heróis, criados em berço de bronze,

De coração corajoso, como dantes, semelhantes aos Celestiais.

Depois eles chegam, trovejantes. Entretanto penso por vezes

Que é melhor dormir do que estar assim sem companheiros,

Nem sei perseverar assim, nem que fazer entretanto,

Nem que dizer, pois para que servem poetas em tempos de indigência?

Mas eles são, dizes, como sacerdotes santos do deus do vinho,

Que em noite santa vagueavam de terra em terra."

De "O pão e o vinho" em Elegias de Friedrich Hölderlin



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 14h13
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"Les choses" - Perec

Não tenho lido tanto como deveria e, mais importante, quanto gostaria nos últimos tempos. Dos livros que pude ler, um que me despertou realmente o prazer da leitura foi Les choses (As coisas) de Georges Perec, escritor francês pouco conhecido por aqui, mas muito criativo, autor da obra-prima de vanguarda A vida: modo de usar. Em Les choses constrói uma narrativa absolutamente impessoal, distanciada, quase um relato sociológico, do cotidiano de um jovem casal pequeno burguês da década de 1960, um primor de análise da capacidade corrossiva da sociedade de consumo sobre a formação psíquica e sobre as relações interpessoais. Sem cair no discurso panfletário, sem dar lição de moral, flagrando com delicadeza as agruras de uma vida rodeada por desejos pouco prováveis e, muitas vezes, desnecessários, sonhos irrealizáveis de enriquecimento sem esforço (tão típicos do imaginário popular), Perec acompanha a vida desse casal da vida estudantil livre até um engajamento no mercado de trabalho, após várias tentativas fracassadas de conciliar os desejos de consumo com a manuntenção da disponibilidade. A obra evidencia o quanto podemos ser possuídos pelas coisas que pretendemos possuir. O problema não é exatamente querer ter coisas, buscar conforto, beleza ou mesmo pequenos fetiches inexplicáveis, prazeres passageiros e sempre insatisfatórios (se não fossem, a vontade de ter mais que move o capital não estaria sempre presente): a questão é ter que viver de um modo contrário aos seus príncipios (quando há príncipios) apenas para tentar obter bens materiais. Desse modo, apenas as coisas possuem voz na sociedade moderna, algo que o autor soube captar perfeitamente ao não deixar espaço para o diálogo em toda a narrativa. Durante toda a obra, só duas frases, nas últimas páginas, são trocadas pelo casal, absolutamene vazias, exatamente no momento em que deixam a vida instável que tentaram manter para abraçar compromissos mais sérios com o mundo do trabalho fixo.

"Le moyen fait partie de la vérité, aussi bien que le résultat. Il faut que la recherche de la vérité soit elle-même vraie; la recherche vraie, c'est la vérité déployée, dont les membres épars se réunissent dans le résultat". Karl Marx

 



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 17h49
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Que belo segundo turno!



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 17h43
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Seu Metaléxico

economiopia

desenvolvimentir

utopiada

consumidoidos

patriotários

suicidadãos

(José Paulo Paes)



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 18h33
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Pelo direito de votar "errado"

Muitos políticos e até alguns defensores da moral e dos bons costumes do Ministério Público estão se arrepiando com a possível votação recorde no candidato Tiririca nas eleições do dia 03 de outubro e até buscando meios para impedir isso. Particularmente, nunca daria meu voto para tal figura (apesar de ter dados boas risadas vendo as escrotices que ele criou para o horário eleitoral - nem isso outros candidatos "sérios" eleitos irão dar para a população antes, durante, muito menos depois de seus mandatos), mas defendo o direito do cidadão, se quiser, votar "errado". Sei que nem todos estão, como o Skaf defende, fazendo com tal voto um protesto consciente contra os políticos de carreira, a maioria da população só está mesmo entrando na gozação. Mesmo como voto de protesto, é um voto burro, afinal, todos sabem que já virou um esquema dos partidos nanicos essa ideia de lançar "artistas" para tentar sobreviver como legenda até a próxima eleição e, durante isso, ter como barganhar votos no Congresso com quem puder pagar mais. Talvez melhor protesto seria um voto em um candidato bom, mesmo que sem chance de vencer, ou o voto nulo (apesar do risco de estar deixando aos outros a total decisão sobre o que irá acontecer). No entanto, fico pensando... o que é um voto de protesto inteligente?

Algumas eleições atrás, por exemplo, tentei um voto de protesto inteligente e apostei na Soninha como possível alternativa, mudança. Realmente... uma senhora mudança, hein, Soninha?! Outro dia estava lendo o jornal e me deparei com o nome dela ligado à coordenação de campanha do PSDB e me perguntei: será a Soninha da MTV, ex-PT? Fui dar uma pesquisada na internet e... não é que é verdade!!! Votei nela nas primeiras candidaturas, mesmo após a saída do PT que até achei coerente na época, mas tive minha decepção quando soube que tinha aceitado uma subprefeitura do Kassab e agora isso! Que mudança radical, hein?! Agora é tão defensora do PSDB que até problema no metrô (algo não tão raro de acontecer ) vira sabotagem da oposição segundo seu twitter... Por essas e outras que não dá para colocar a mão no fogo mais por ninguém nesse mundo, mesmo nos votos de protesto. Sendo assim, será que é justo reclamar tanto do pessoal que está pretendo votar em massa em um palhaço que declara com todas as letras não saber o que vai fazer quando for eleito? Pelo menos, já sabem o que ele não irá fazer. Afinal, você acredita em alguém e depois só se decepciona...



Escrito por Kleber Pereira dos Santos às 15h44
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